Por que estudar e trabalhar com as algas?

Gracilariopsis tenuifrons.

Diálogo muito comum na época do meu mestrado:

- Amanda, o que você faz?

- Faço mestrado no Laboratório de Algas Marinhas, lá na USP.

- Ah, legal! Mas quando você vai começar a trabalhar?

- Mas eu trabalho! (indignação no olhar) Estudo e trabalho com as algas, a pesquisa é meu trabalho.

- Ah tá! (aquele ar de descrédito) Mas por que você faz isso?

….

Porque eu gosto é a resposta! Porém, isso não é suficiente para as pessoas, muito menos para as agências financiadoras. Então vou contar aqui um pouquinho mais sobre o maravilhoso mundo das algas e como entrei nele.

Sempre adorei plantas e flores, e no colegial fui apresentada formalmente à Botânica. Também adorei! Mas quando optei por cursar Ciências Biológicas tinha em mente a Genética, que começou a tomar a mídia na época.

Na faculdade, a primeira disciplina de Botânica foi “Taxonomia e Morfologia de Criptógamas”. De forma ampla, abordava algas, briófitas, pteridófitas e fungos, “vegetais com estrutura reprodutiva não evidente”.  Atualmente, sabe-se que os fungos são mais relacionados aos animais do que às plantas. Entretanto, eles continuam sendo estudados e ensinados pela Botânica. Fiquei encantada com aulas práticas, pela primeira vez montava lâminas e usava microscópios! Depois de realizar os exercícios obrigatórios, ficava examinando detalhadamente cada lâmina, procurando por cianobactérias, diatomáceas (tão lindas!), ou analisando a estrutura de organismos maiores. Enquanto isso, enchia as monitoras de perguntas, e uma delas me dizia “Ah, você ainda vai trabalhar com isso, tenho certeza!”

E ela acertou! Dois anos depois lá fui eu bater na porta do Laboratório de Algas Marinhas, o LAM. Fui visitar uma amiga que estava trabalhando com biologia molecular. A Rose, a tal monitora, estava lá, era doutoranda, e apresentou-me tudo no LAM e ofereceu-me um estágio. Aceito na hora! Trabalhei um ano com ela, ajudando em experimentos do seu doutorado e aprendendo muito, muito mesmo! Em seguida fiz minha iniciação científica e, depois, o mestrado. Foram cinco anos de grande crescimento profissional e pessoal!


Colocando minhas algas na câmara de cultivo.

As algas têm grande importância ecológica por serem os principais produtores primários nos ecossistemas aquáticos e são as grandes responsáveis pela produção de oxigênio (não, a Amazônia não é o pulmão do mundo!). Algumas espécies de cianobactérias, diatomáceas e dinoflagelados podem produzir potentes toxinas, as quais causam a morte de peixes e moluscos (e outros animais que se alimentem deles) e são prejudiciais também aos humanos (vide o caso da diálise em Caruaru).

Muitos gêneros de macroalgas são utilizados na alimentação humana, principalmente Porphya (nori), Euchema, Laminaria (kombu) e Undaria (wakame). Essas algas são bastante consumidas em países orientais e sua produção através do cultivo ultrapassa o que é colhido de populações naturais. Aliás, o cultivo de macroalgas representa a segunda maior produção mundial em aqüicultura, de acordo com dados da FAO.

As macroalgas também são usadas para extração de ficocolóides, produção de fertilizantes e ração animal. Possuem grande potencial como biorremediadoras no tratamento de águas poluídas e em cultivos integrados com invertebrados e peixes, devido à capacidade de remoção de compostos nitrogenados e fosfatados e de metais pesados, além de manter estável o teor de oxigênio dissolvido. Ainda, as macroalgas são matéria-prima para a obtenção de compostos bioativos com potencial atividade antibiótica, antiviral ou antitumoral, e extração de ficobiliproteínas, usadas como corante e marcador fluorescente.


Extraindo pigmentos.

Algumas microalgas, por exemplo a cianobactéria Spirulina, têm sido usadas como complemento alimentar devido ao seu alto teor de proteínas e aminoácidos. As microalgas verdes também têm recebido destaque devido ao seu enorme potencial para a produção de biocombustíveis, uma vez que produzem e armazenam uma boa quantidade de lipídeos.

Nos próximos posts explicarei detalhadamente cada uma dessas aplicações, com a bibliografia específica.

Quem são as algas?

A ciência é um campo muito dinâmico e é natural que os sistemas de classificação estejam em constante transformação. O sistema de cinco reinos proposto por Robert Whittaker em 1969, que perdura até hoje em muitos livros didáticos, considera primordialmente semelhanças morfológicas e fisiológicas. Atualmente, muitos trabalhos utilizam ferramentas de biologia molecular para elucidar as relações de parentesco entre os diversos organismos, revelando que muitos grupos antes estabelecidos não possuem qualquer significado taxonômico e, portanto, novas filogenias têm sido adotadas (ver figura no fim do texto).
Um desses grupos é o das algas. Elas estão agrupadas em filos conforme a organização do talo, pigmentação, constituição da parede celular e substâncias de reserva.  São avasculares e, portanto, sem organização de raiz, caule e folhas. A maioria de seus representantes é aquática, mas alguns vivem no ambiente terrestre.

Os filos englobados pelo termo “algas” são:

Cyanobacteria (cianofíceas ou algas azuis): Procarionte. Talo unicelular, colonial ou filamentoso. Possui clorofila a, ficobiliproteínas (pigmento que confere coloração avermelhada ou azulada e atua como reserva de nitrogênio) e carotenóides (cor amarela, laranja ou marrom). Sua reserva é o amido das cianofíceas (semelhante ao glicogênio). Bainha de mucilagem envolve as células e colônias, permitindo fácil reconhecimento ao microscópio. Acinetos (célula de resistência) e heterocitos (célula responsável pela produção de nitrogenase, enzima que fixa nitrogênio molecular)


Anabaena crassa

Prochlorophyta: Procarionte. Talo unicelular ou filamentoso. Possui clorofila a e b e carotenóides. Amido semelhante ao das cianofíceas. Seus representantes já pertenceram à Cyanophyta, porém o novo filo foi criado devido à ausência de ficobiliproteínas e presença de clorofila b. Infelizmente, não achei nenhuma foto interessante para ilustrar.

Euglenophyta: Eucarionte. Talo unicelular e móvel por flagelos (1 ou 2). Sua reservaa é o paramilo. Não possui parede celular, mas internamente à membrana plasmática tem uma película protéica organizada espiraladamente. Na porção anterior da célula está localizado o estigma (ou mancha oceolar), estrutura relacionada à captação de estímulos luminosos. Sua cor alaranjada deve-se aos carotenóides. Algumas espécies são heterotróficas.


Euglena spirogyra

Dinophyta (dinoflagelados): Eucarionte. A maioria dos representantes é unicelular, porém alguns podem formar colônias pela não separação das células recém divididas. Possui clorofila a e c2 e carotenóides. Sua reserva é constituída por amido e alguns lipídeos. Quando presente, a parede celular é interna à membrana plasmática e composta por celulose. A característica marcante deste grupo é a presença de dois flagelos, um na porção posterior e outro circundando o plano equatorial da célula, o que confere um movimento de rotação. Existem também formas heterotróficas.


Ceratium hirundinella

Bacillariophyta (diatomáceas) : Eucarionte. Maioria é unicelular, mas existem também formas coloniais. Possui clorofila a, c1 e c2 e carotenóides. Sua principal substância de reserva é a crisolaminarina. A parede celular é composta por sílica.


Pinnularia sp. e Coscinodiscus sp.

Phaeophyta (algas pardas): Eucarionte. Não existem formas unicelulares. Talo filamentoso, pseudoparenquimatoso (filamentos justapostos unidos por mucilagem)  ou parenquimatoso. Possui clorofila a, c1 e c2 e carotenóides. Laminarina e manitol são suas principais substâncias de reserva. A parede celular é formanda por celulose, alginato e fucoidina.


Laminaria digitata

Rhodophyta (algas vermelhas): Eucarionte. Existem formas unicelulares, filamentosas, pseudoparenquimatosas e parenquimatosas. Possui clorofila a, ficobiliproteínas e carotenóides. Suas principais reservas são amido das florídeas e floridosídeo. A parede celular é composta por celulose impregnada de ágar ou carragena. Estas substâncias, assim como o alginato das algas pardas, são conhecidas como ficocolóides, têm grande valor econômico e serão discutidas em um próximo post. Em algumas famílias há deposição de carbonato de cálcio ou magnésio.


Gracilaria corticata e Porphyra dioica

Chlorophyta (algas verdes): Eucarionte. Talo unicelular, colonial, filamentoso (celular ou cenocítico) ou parenquimatoso. Possui clorofila a e b e carotenóides.  Tem amido como substância de reserva. Parede celular constituída por celulose, sendo que alguns gêneros podem apresentar depósito de carbonato de cálcio.


Ulva rigida e Codium fragile

Hoje se sabe que tais filos são pouco relacionados entre si (figura abaixo), e que apenas as algas verdes e vermelhas possuem parentesco direto com Embryophyta (as chamadas plantas terrestres). Devido a semelhanças bioquímicas, ultra-estruturais, detalhes da divisão celular e dados de biologia molecular, considera-se que um pequeno grupo de Chlorophyta, chamado Charophyceae (considerado por alguns autores como um filo distinto, Charophyta), deu origem às plantas terrestres.

Representação esquemática da filogenia consenso dos eucariontes. Modificado de Baldauf, 2003.

Leituras recomendadas:

Baldauf, S.L. 2003. The deep roots of eukaryotes. Science 300: 1703-1706

Oliveira, E.C. 2003. Introdução à Biologia Vegetal. 2ª edição. EDUSP. 267p.

Raven, P.H., Evert, R.F. & Eichhorn, S.E. 2007. Biologia Vegetal. 7ª edição. Guanabara Koogan. 830p.

Sustentabilidade e esse tal SWU

Sustentabilidade, palavra da moda. Ecologicamente correto, muitos dizem ser.

Segundo o Relatório de Brundtland, sustentabilidade é “satisfazer as necessidades presentes sem compromenter a capacidade das gerações futuras de suas próprias”. O conceito não engloba apenas a conservação ambiental, mas também a relaciona diretamente com a economia, o desenvolvimento social e cultural.

Tenho visto a ampla divulgação e apoio (por muito biólogos, inclusive) ao SWU, um movimento (que se diz) em prol da sustentabilidade, que tem a prerrogativa de que as mudanças em direção a um mundo ecologicamente correto começa com pequenas atitudes de cada cidadão. Tudo muito bonito… É mesmo?

No plano de ação está a mitigação de carbono, através do plantio de árvores. Sempre as árvores! A organização garante que esse plantio será suficiente para absorver as toneladas de gás carbônico equivalentes às emitidas no transporte áereo dos artistas, consumo dos geradores, traslados etc. Eu gostaria muito de saber como foi feito tal cálculo. Mas talvez seja possível que as árvores absrovam tudo, quem sabe daqui uns 300 anos. Será que eles contaram as emissões relativas ao transporte de quem vai ao evento? E à produção de tudo que será consumido pelos participantes?

No mesmo plano de ações diz que “quem levar conta de luz que comprove a redução no consumo de energia no último mês poderá comprar produtos SWU com 10% de desconto”. Hã? Um evento que visa conscientizar sobre sustentabilidade estimulando o consumo? Contraditório, não?

E depois de todo o consumo (posso até imaginar o chão repleto de copos descartáveis, garrafas vazias, embalagens de alimentos), haverá um incentivo à reciclagem, um processo tão caro, que consome muita energia. Antes do R de reciclar há outro dois: reduzir e reaproveitar, ambos citados apenas 2 vezes no plano de ações. Reciclar, reciclagem e afins estão citados 21 vezes.

O R mais importante, o de repensar hábitos incorporados em nossa sociedade tão individualista e consumista não está lá. Será que estará presente pelo menos no Fórum Global de Sustentabilidade, ou ele será deixado de lado entre tantos shows?